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08/10/2014

Coreia do Norte admite pela primeira vez existência de 'campos de trabalho'

A Coreia do Norte admitiu publicamente a existência de seus campos de trabalho pela primeira vez na terça-feira (7), uma admissão que parece responder ao relatório altamente crítico da ONU sobre direitos humanos, divulgado este ano.

Diplomatas do país recluso e empobrecido também disseram a repórteres que um alto oficial da Coreia do Norte visitou a sede da União Europeia e expressou interesse em um diálogo, com discussões sobre direitos humanos previstas para o ano que vem.

O embaixador adjunto da Coreia do Norte da ONU, Ri Tong Il, disse que o secretário do Partido dos Trabalhadores, que comanda seu país, havia visitado a União Europeia e que “estamos esperando o final deste ano para iniciar diálogos políticos entre os dois lados”. O diálogo sobre direitos humanos viria a seguir.

Em Bruxelas, um oficial da UE confirmou um encontro recente da Coreia do Norte com o líder de direitos humanos da entidade, Stavros Lambrinidis, mas disse que qualquer diálogo atualmente em planejamento é limitado às questões de direitos.

Choe Myong Nam, funcionário do Ministério das Relações Exteriores norte-coreano encarregado dos assuntos da ONU e de direitos humanos, disse em um breve encontro com repórteres que seu país não tem campos de prisioneiro e, na prática, “nenhuma prisão, coisas desse tipo”.

Mas ele discutiu brevemente os campos de “reforma através do trabalho”. “Tanto na lei quanto na prática, temos realmente campos de detenção de reforma através do trabalho – não campos de detenção – onde as pessoas são aperfeiçoadas através de sua mentalidade e ao enxergar seus erros”, disse.

Esses campos de “reeducação” são para criminosos comuns e alguns prisioneiros políticos, mas a maioria dos prisioneiros políticos é mantida em um sistema mais rigoroso de campos de detenção política.

Os oficiais norte-coreanos receberam diversas perguntas, mas não responderam uma sobre a saúde do líder Kim Jong Um, que não faz aparições públicas desde 3 de setembro e recentemente faltou a um evento ao qual costuma comparecer.

Os oficiais dizem que não se opõem aos diálogos sobre direitos humanos, desde que a questão não seja usada como uma “ferramenta para interferência”. O discurso deles pareceu programado para antecipar a mais recente resolução sobre a Coreia do Norte e direitos humanos que a União Europeia e o Japão apresentam na Assembleia Geral da ONU todos os anos.

O pronunciamento da Coreia do Norte se relacionou a um extenso relatório de direitos humanos lançado pelo país no mês passado, em resposta a uma consulta de uma comissão da ONY que concluiu que o governo autoritário havia cometido crimes contra a humanidade. “Ousamos dizer que o caso dos direitos humanos na Coreia do Norte excede todos os outros em duração, intensidade e horror”, disse o comissário chefe Michael Kirby ao Conselho de Segurança da ONU em abril.

A divulgação do relatório em fevereiro colocou o país na defensiva. Seu reconhecimento na terças sobre os campos de reforma, e sua abertura ao chefe de diretos da EU foram sinais de que Pyongyang agora entende que seu relatório sobre direitos humanos não irá desaparecer, disse Greg Scarlatoiu, diretor executivo do Comitê pelos Direitos Humanos na Coreia do Norte, com sede em Washington. Ele disse que a menção aos campos de reforma era inédita.

“Enquanto os registros de direitos humanos na Coreia do Norte permaneçam insondáveis, é muito importante que importantes oficiais norte-coreanos estejam agora falando sobre o assunto, e mesmo expressando interesse formal em um diálogo”, disse Scarlatoiu por email. “A tradicional abordagem norte-coreana aos assuntos ligados a direitos humanos costumava ser simplesmente ignorar relatórios de ONGs internacionais, agências governamentais ou órgãos da ONU. Direitos humanos costumavam simplesmente desaparecer, superados por provocações militares sobre armas nucleares e mísseis”.

Ao dizer que chamava o reconhecimento dos campos de reforma através do trabalho “um passo modesto na direção certa”, ele afirmou que a maior preocupação continua sendo o sistema de campos de prisões políticas que, estima-se, tenham 120 mil pessoas.

O relatório da própria Coreia do Norte sobre seu sistema de direitos humanos acusa os Estados Unidos e seus aliados de manter uma campanha que tem como objetivo interferir nos assuntos de Pyongyang e “eventualmente derrubar o sistema social ao inventar ‘questões de direitos humanos’ no país para confundir a opinião pública internacional”, conforme seu prefácio.

Param-Preet Singh, uma conselheira senior da Human Rights Watch que assistiu à apresentação ao lado de diversos diplomatas de outros países, disse que a importância do evento foi o fato de a Coreia do Norte o realizar em si. O país costumava ser visto como “impermeável à pressão”, disse ela.

Fonte: G1